Demanda contratada de eletroposto: calcular e evitar ultrapassagem

Resposta curta

Demanda contratada é a potência, em kW, que a distribuidora deixa disponível no seu ponto. No grupo A, a fatura cobra o maior valor entre ela e a demanda medida. Para estimar, some a potência dos carregadores que podem ligar juntos. Passar de 5% do contratado gera cobrança por ultrapassagem.

Atualizado em 9 min de leituraEquipe Velquia

Num eletroposto do grupo A, a demanda contratada pesa na conta de luz até no mês em que quase ninguém recarregou. Contratar demais é pagar todo mês por potência que o ponto não usa; contratar de menos traz a cobrança por ultrapassagem. O número certo sai de quantos carregadores trabalham juntos no pico.

O texto mostra quando o ponto entra no grupo A, como estimar a demanda antes de ligar, quanto custa errar e o que muda entre as modalidades verde e azul. As regras vêm da REN 1.000/2021 da ANEEL, na redação consultada em outubro de 2026, e todo número de exemplo é ilustrativo.

Grupo A ou grupo B: onde o eletroposto entra

A REN 1.000/2021 separa as unidades consumidoras em dois grupos pela tensão de conexão. O grupo B fica abaixo de 2,3 kV. O grupo A vai de 2,3 kV para cima e inclui o subgrupo AS, de ligação subterrânea abaixo de 2,3 kV (art. 2º, XXIII e XXIV). Quem define o grupo e a tensão do seu ponto é a distribuidora, olhando a carga ou a geração instalada (art. 23):

Carga instalada do ponto Enquadramento
Até 50 kW Grupo B, em rede aérea
Acima de 50 kW e até 75 kW Grupo B, em rede aérea; a distribuidora pode levar ao grupo A se um estudo mostrar que o equipamento prejudica a qualidade do serviço de outros consumidores
Acima de 75 kW, com demanda a contratar de até 2.500 kW Grupo A, em tensão de 2,3 kV até menos de 69 kV

Num exemplo ilustrativo, um carregador rápido de 60 kW cai na faixa de 50 a 75 kW, e dois somam 120 kW e levam o ponto ao grupo A, com contrato de demanda. Essa é a nossa leitura dos artigos 23, 148 e 220, e quem confirma o enquadramento do seu ponto é a distribuidora.

O que é demanda contratada e por que ela se paga sem recarga

A conta de luz do grupo A cobra o consumo, em kWh, e a demanda, que é potência, em kW. A REN 1.000 define duas demandas (art. 2º, XII e XIII):

  • Demanda contratada: a potência que a distribuidora precisa manter disponível no ponto de conexão, no valor e no período fixados em contrato.
  • Demanda medida: a maior demanda verificada pela medição, calculada em intervalos de 15 minutos dentro do período de faturamento.

Um único quarto de hora de pico define a demanda medida do mês, e a fatura cobra o maior valor entre a medida e a contratada (art. 294, II). Daí saem três consequências:

  1. Pico abaixo do contratado: você paga o contratado. Num exemplo ilustrativo, com 90 kW contratados e pico de 58 kW, a fatura cobra 90 kW.
  2. Pico acima do contratado: você paga o medido, e, se ele passar o contratado em mais de 5%, entra também a ultrapassagem.
  3. Existe um piso: a regra geral do grupo A pede pelo menos 30 kW contratados em um dos postos tarifários (art. 148, III).

A demanda funciona como custo fixo do ponto e entra no lucro do mês antes de o primeiro motorista chegar. A conta inteira do lucro está em eletroposto dá lucro.

Como estimar a demanda contratada de um eletroposto

A estimativa sai em quatro passos, antes de ligar o ponto:

  1. Liste a potência de cada carregador.
  2. Veja o que o carro aceita. O Departamento de Energia dos EUA cita a potência do equipamento e o carregador interno do veículo entre o que define o tempo de recarga, e a recarga fica no menor dos dois. Se o carro aceita 40 kW, um carregador de 60 kW entrega 40 kW.
  3. Estime a simultaneidade: quantos carregadores trabalham juntos no pior quarto de hora do mês. Some as potências desse momento.
  4. Compare com a demanda medida das primeiras faturas e ajuste.

Exemplo ilustrativo. Um ponto com dois carregadores DC de 60 kW e um AC de 22 kW, o máximo que o Inmetro, em 2024, lista para o conector Tipo 2. No pior quarto de hora, os dois DC atendem carros que aceitam 40 kW, e o AC atende um carro que aceita 11 kW.

Carregador Quantidade Potência de cada Potência instalada No pior quarto de hora
DC 2 60 kW 120 kW 80 kW (40 kW cada)
AC 1 22 kW 22 kW 11 kW
Total 3 142 kW 91 kW

Na nossa leitura do art. 23, a potência instalada de 142 kW põe o ponto no grupo A, e o pico estimado de 91 kW orienta quanto contratar. O exemplo usa uma tarifa de demanda de R$ 40 por kW, valor ilustrativo: a sua está na fatura. A modalidade é a verde, com uma tarifa de demanda só.

Contratada Limite (contratada + 5%) Faturada com pico de 91 kW Demanda faturada a R$ 40 por kW Ultrapassagem
70 kW 73,5 kW 91 kW R$ 3.640, mais a ultrapassagem Sim, sobre 21 kW de excesso
90 kW 94,5 kW 91 kW R$ 3.640 Não
142 kW 149,1 kW 142 kW R$ 5.680 Não

Com 70 kW contratados, a fatura cobra os 91 kW medidos e ainda soma a ultrapassagem, que este exemplo não calcula, e a economia aparente some. Com 90 kW, a demanda custa R$ 3.640 e o pico fica dentro da tolerância. Com os 142 kW da potência instalada, ela custa R$ 5.680, ou R$ 2.040 a mais por mês por uma demanda que o ponto não usa.

Errar para cima custa por mais tempo, porque reduzir o contrato exige aviso prévio e só cabe uma vez a cada 12 meses (arts. 152 e 155, detalhados nas perguntas frequentes).

Ultrapassagem de demanda: quando é cobrada e como evitar

A distribuidora soma à fatura a cobrança por ultrapassagem quando a demanda medida passa da contratada em mais de 5% (art. 301). O cálculo sai por posto tarifário e usa três números: a demanda medida, a contratada e um valor de referência igual à tarifa de demanda do seu subgrupo (art. 301, § 1º). O valor final aparece na sua fatura.

Exemplo ilustrativo: 90 kW contratados toleram até 94,5 kW. Num mês em que os dois carregadores DC entregaram 55 kW cada ao mesmo tempo e o AC ficou em 11 kW, o pico medido foi de 121 kW (55 + 55 + 11). São 31 kW acima do contratado, e a fatura traz a ultrapassagem.

Quatro hábitos evitam a ultrapassagem:

  1. Contrate pelo pico medido. Leia a demanda medida em cada fatura: a potência instalada define o grupo, e o pico real orienta o contrato.
  2. Limite a potência somada dos carregadores. Segundo a Open Charge Alliance, o OCPP 1.6 já traz smart charging com balanceamento de carga e perfis. Pergunte ao fornecedor do carregador e da plataforma se o recurso funciona no seu ponto; o protocolo está em o que é OCPP.
  3. Avise a distribuidora antes de aumentar a carga. A REN 1.000 pede esse aviso (art. 550; detalhes em montar eletroposto em casa e cobrar recarga), e cada carregador novo muda o pico estimado.
  4. Acompanhe o pico todo mês. O pico sai da fatura de energia. Na plataforma de gestão que a Velquia monta, essa fatura entra no lucro do mês no lugar da estimativa, e o pico continua lido nela. Veja a plataforma.

Modalidade verde ou azul: o que muda na demanda

No grupo A abaixo de 69 kV, você escolhe entre as modalidades verde e azul. De 69 kV para cima, a modalidade é a azul (art. 220). A diferença está na tarifa de demanda (arts. 213 e 214):

Modalidade Tarifa de demanda Tarifa de consumo
Verde Uma só, sem divisão por horário Uma para a ponta e outra para fora de ponta
Azul Uma para a ponta e outra para fora de ponta Uma para a ponta e outra para fora de ponta

A ponta reúne 3 horas diárias consecutivas, definidas pela distribuidora e aprovadas pela ANEEL (art. 2º, XXXVIII). Para escolher, refaça as faturas de um ano com as tarifas verde e azul da sua distribuidora e veja qual sairia menor. A troca a pedido do consumidor é possível se a anterior ocorreu há mais de 12 ciclos de faturamento, ou se o pedido chega até 3 ciclos completos depois da revisão tarifária da distribuidora (art. 221, I).

Com a demanda estimada, veja quanto ela pesa no retorno em payback de eletroposto e onde ela entra na operação em como funciona um eletroposto.

Perguntas frequentes

Como funciona a demanda contratada fora de ponta?

Fora de ponta é todo horário que não entra na ponta, e a ponta tem 3 horas diárias consecutivas, definidas pela distribuidora, sem valer em sábados, domingos e alguns feriados nacionais (art. 2º, XXXVIII). Na modalidade verde, a demanda tem uma tarifa só, sem divisão por horário. Na azul, há uma tarifa de demanda para a ponta e outra para fora de ponta, e a demanda contratada de cada posto fica única durante o contrato.

Como diminuir a demanda contratada de energia?

Pedindo a redução à distribuidora, com aviso de 90 dias nos subgrupos AS e A4 e de 180 dias nos demais. A REN 1.000 veda mais de uma redução em 12 meses (arts. 152 e 155). Antes de pedir, confira o pico medido dos últimos meses na fatura, porque reduzir abaixo dele traz a ultrapassagem de volta.

Existe um limite de 75 kW para ligar o eletroposto?

Em rede aérea, o limite de 75 kW separa o grupo B do grupo A. Até 75 kW de carga instalada, o ponto fica no grupo B; acima disso, a distribuidora o enquadra no grupo A, que tem contrato de demanda (arts. 23 e 148). Entre 50 kW e 75 kW, ela também pode mandar o ponto para o grupo A, com um estudo que justifique. Confirme o seu caso com a distribuidora.

Fontes

Consultadas em 19/10/2026.

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