Eletroposto em casa: dá para cobrar recarga de terceiros?

Resposta curta

Dá. A REN 1.000/2021, da ANEEL, permite recarregar carro de terceiros e cobrar a preço livremente negociado (art. 554). Ao cobrar, entram nota fiscal, imposto e acordo com o motorista; aviso à distribuidora e norma de instalação valem com ou sem cobrança. A potência do ponto limita quantos carros você atende.

Atualizado em 9 min de leituraEquipe Velquia

Vale para quem tem carregador em casa e pensa em vender recarga, ou quer começar com um ponto pequeno que pode crescer. A primeira recarga cobrada leva você ao contador, e parte das regras de rede e de instalação já vale para quem só carrega o próprio carro.

A gente passa pelo que o art. 554 permite, pelo que muda quando a cobrança vira negócio, pelos limites de potência e de tempo de uma casa e pelo caso do condomínio, e fecha com uma lista do que fazer antes do primeiro kWh vendido. A REN 1.000/2021 citada aqui é a da redação consultada em outubro de 2026.

O que a REN 1.000/2021 permite?

O art. 554 trata do caso direto:

"É permitida a recarga de veículos elétricos que não sejam do titular da unidade consumidora em que se encontra a estação de recarga, inclusive para fins de exploração comercial a preços livremente negociados."

O capítulo da recarga (arts. 550 a 560) não traz tarifa para a recarga cobrada de terceiros, e a única referência de preço é "livremente negociados" (arts. 554 e 559). Quem fixa o valor do kWh é você.

O art. 555 traz um limite. A norma veda a injeção de energia na rede de distribuição a partir do veículo elétrico e a participação dele no sistema de compensação de micro e minigeração, e libera o fluxo bidirecional que fica dentro da mesma unidade consumidora. Na prática, o carro da garagem não devolve energia para a rede da distribuidora.

O que muda quando a cobrança vira negócio?

Item Carregando só o seu carro Cobrando de terceiros
Aviso à distribuidora (art. 550) Sim, em ligação nova, mudança de carga ou de tensão Sim, nos mesmos casos
Protocolo aberto no equipamento (art. 552) Não se aplica a equipamento de uso só privado Pela nossa leitura, passa a valer: o carregador atende gente de fora
Nota fiscal e imposto Não há venda SP e PR responderam que a recarga cobrada paga ICMS, com nota fiscal
Cadastro Nenhum Cadastro de contribuinte no estado em SP e no PR; o CNPJ, você confirma com o contador
Classe tarifária (art. 174) A da casa Pergunte à distribuidora se muda
Contrato Só com o dono do imóvel, se for alugado Com o motorista (preço, horário, regras de uso) e com o dono do imóvel ou o condomínio

Nota fiscal, imposto e CNPJ

As Fazendas de São Paulo (resposta de 8 de julho de 2025) e do Paraná (resposta de 4 de setembro de 2025) concluíram que a recarga cobrada por estação está sujeita ao ICMS, com nota fiscal. As duas consultas tratam de estação comercial, e o caso de um ponto em casa você leva ao contador. Confirme com o seu contador antes de cobrar o primeiro kWh.

O passo a passo de cadastro, CNAE e Simples está em como abrir uma empresa de eletroposto, e o debate entre ICMS e ISS, em Eletroposto paga ICMS ou ISS?.

Aviso à distribuidora e entrada de energia

Pelo art. 550 da REN 1.000/2021, você comunica a distribuidora antes de instalar a estação em três casos: ligação nova, carga instalada maior ou menor, ou troca do nível de tensão. Isso vale para quem carrega só o próprio carro e para quem cobra. Quem paga a adequação da rede e da medição segue os critérios gerais da norma (art. 551), e o art. 553 manda seguir os padrões da distribuidora e as normas dos órgãos públicos competentes.

Antes de comprar o carregador, pergunte à distribuidora quanta carga o seu padrão de entrada aguenta e quanto custa aumentar. Pergunte também se cobrar recarga muda a classe da sua unidade, porque a classe tarifária acompanha a atividade que a unidade comprova exercer (art. 174). A ANEEL abriu a Consulta Pública 42/2025 sobre a conexão de carregadores à rede, com contribuições de 11 de dezembro de 2025 a 10 de março de 2026, então confirme a regra vigente.

Norma de instalação

A ABNT NBR 17019 é a norma de instalações elétricas de baixa tensão para alimentação de veículos elétricos. O Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, na Instrução Normativa 23, vigente a partir de 25 de junho de 2026, exige que as instalações elétricas dos locais com recarga atendam à NBR 5410 e à NBR 17019, e o sistema de recarga à NBR IEC 61851. O Inmetro lembra que norma técnica é de aplicação voluntária e pode virar obrigatória por regulamento de uma autoridade.

Pergunte ao corpo de bombeiros do seu estado se a regra alcança uma casa, contrate profissional habilitado, com projeto e ART ou RRT, e confira no catálogo da ABNT a edição vigente de cada norma.

Quais os limites práticos de um ponto residencial?

Potência. Segundo o Inmetro, o conector Tipo 1 entrega de 3,7 kW até 7,4 kW em corrente alternada monofásica. O Tipo 2 vai de 3,7 kW até 22 kW em corrente alternada trifásica, e em rede monofásica o carro carrega com menos potência.

Tempo. O cálculo é energia dividida por potência. Exemplo ilustrativo e hipotético: repor 40 kWh em um ponto de 7,4 kW leva 5,4 horas sem perdas (40 ÷ 7,4) e cerca de 6,4 horas com perda de 16% (40 ÷ 0,84 ÷ 7,4). O Departamento de Energia dos EUA cita perda dessa ordem entre a tomada e a bateria, em dado de 2018. O seu carro e o seu carregador podem perder mais ou menos.

Quantos carros. No mesmo exemplo, com 6,4 horas por recarga completa, cabem três por dia (24 ÷ 6,4 = 3,75), se os motoristas aceitarem esperar. Com recargas menores, cabem mais.

Padrão de entrada. Pela REN 1.000/2021 (art. 23, I), a distribuidora enquadra no grupo B, em rede aérea, a unidade com carga e geração instalada de até 75 kW, e um carregador de 7,4 kW fica abaixo desse limite. Se o negócio crescer além disso, o ponto vai para o grupo A, com demanda contratada: veja demanda contratada em eletroposto.

Medição do kWh. Um relatório preliminar do Inmetro, concluído em maio de 2025, estuda o kWh medido pelo carregador como base da cobrança e trata a ausência de garantia metrológica nessas transações como o problema regulatório. A recomendação do estudo é começar por regulamento limitado aos equipamentos em corrente alternada, mais de 90% do parque instalado em 2024.

E se a casa for em condomínio?

Em SP, a Lei 18.403, de 18 de fevereiro de 2026, garante ao condômino instalar, às suas expensas, uma estação de recarga individual na vaga privativa. Pede compatibilidade com a carga da unidade, normas da distribuidora e da ABNT, profissional habilitado com ART ou RRT e comunicação prévia ao condomínio, e a convenção não pode proibir sem justificativa técnica ou de segurança documentada. BA, PB e ES têm leis no mesmo desenho, e a do RN vai além; as quatro estão comparadas em eletroposto em condomínio. Pela nossa leitura, a lei trata do direito de instalar e não da venda de recarga a vizinhos. Leia a convenção e fale com a administração antes de cobrar.

O que fazer antes de cobrar o primeiro kWh

  1. Falar com o contador sobre cadastro, nota fiscal e imposto.
  2. Consultar a distribuidora sobre carga, padrão de entrada, classe e custos.
  3. Contratar instalador habilitado e pedir projeto e ART ou RRT.
  4. Perguntar ao corpo de bombeiros do estado se a regra alcança a sua instalação.
  5. Perguntar ao fabricante qual protocolo aberto o carregador fala (o que é OCPP) e que normas ele atende.
  6. Combinar com o motorista preço, horário e regras de uso, por escrito.
  7. Se o imóvel for alugado ou de condomínio, ler o contrato ou a convenção.

Se o plano é cobrar de verdade, comece pelo contador e pela empresa: como abrir uma empresa de eletroposto.

Perguntas frequentes

Posso montar um eletroposto em casa?

Pode. A REN 1.000/2021 trata da estação de recarga na unidade consumidora, e uma casa é uma delas. Antes de instalar, avise a distribuidora se houver ligação nova, mudança de carga ou de tensão (art. 550) e contrate instalador habilitado, com projeto e ART ou RRT.

Posso cobrar pela recarga do carro elétrico na minha casa?

Pode. O art. 554 da REN 1.000/2021 permite a recarga de veículo de terceiros, inclusive para exploração comercial, a preços livremente negociados. Para cobrar, entram nota fiscal e imposto e, em SP e no PR, cadastro no estado. Confirme com o seu contador antes do primeiro kWh vendido.

Quantas recargas por dia cabem num carregador de casa?

O tempo de cada recarga é a energia a repor dividida pela potência do ponto. Num exemplo ilustrativo, repor 40 kWh num carregador de 7,4 kW leva cerca de 6,4 horas com perda de 16%, e cabem três recargas completas por dia. Com recargas menores, cabem mais.

Quanto custa montar um eletroposto em casa?

A gente não achou fonte oficial com custo de carregador e de instalação no Brasil. O orçamento depende da distância até o quadro, do aumento de carga, do padrão de entrada, do projeto e da mão de obra. Peça orçamento por escrito a mais de um instalador.

Preciso avisar a distribuidora?

Sim, quando a ligação é nova, quando a carga instalada aumenta ou diminui ou quando muda o nível de tensão (REN 1.000/2021, art. 550), com ou sem cobrança. Quem paga a adequação da rede e da medição segue os critérios gerais da norma (art. 551). Peça a resposta da distribuidora por escrito.

Fontes

Consultadas em 19/10/2026.

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